TALENTO, DEDICAÇÃO E AMOR PELA CULTURA AMAZÔNICA POR LEANDRO SOUZA

Reconhecido pelo talento, criatividade e profissionalismo, Leandro se tornou um dos nomes mais admirados da nova geração de figurinistas da Amazônia. Natural de Guajará-Mirim (RO) e atualmente morando em Manaus, ele construiu sua trajetória unindo paixão pela arte, dedicação ao trabalho e um profundo respeito pelas manifestações culturais da região Norte.

Com trabalhos que atravessam festivais folclóricos e grandes espetáculos, Leandro conquistou espaço e reconhecimento em um universo altamente competitivo. Sua entrada no Boi Caprichoso marcou um importante capítulo de sua carreira, consolidando seu nome como um artista competente, criativo e cada vez mais requisitado.

Nesta entrevista, ele relembra a infância, fala sobre os desafios da profissão, compartilha sonhos e destaca a força da cultura amazônica no cenário nacional.

Leandro, como foi sua infância em Guajará-Mirim? Você já demonstrava interesse por arte e criação desde criança?

Na minha cidade acontece um festival folclórico em que dois bois duelam: o Boi Flor do Campo e o Boi Malhadinho. Desde muito pequeno, meus pais levavam a família para assistir às apresentações, e aquilo despertou em mim um grande interesse. Eu queria fazer parte daquele universo de alguma forma, conhecer os bastidores e entender tudo o que acontecia por trás dos espetáculos.

Há alguma lembrança da infância que despertou em você o amor por figurinos, cores e espetáculos?

Sim. Além de acompanhar o festival da minha cidade, também me lembro de assistir ao Festival de Parintins pela televisão ainda muito jovem. Aquilo me encantava. Em Guajará-Mirim, eu sempre procurava maneiras de frequentar os barracões, ajudando no que fosse possível, para aprender mais e conhecer de perto um mundo que o público muitas vezes nem imagina que existe.

Quando você percebeu que queria transformar a arte em profissão? Houve alguém que o incentivou nesse caminho?

No início, eu fazia peças e acessórios bem simples para mim e para uma amiga usar. Ela foi uma das pessoas que mais me incentivou desde o começo, assim como tantas outras que cruzaram meu caminho ao longo dos anos. Quando comecei a publicar alguns trabalhos e as pessoas passaram a fazer encomendas, percebi que aquilo poderia dar certo e que eu precisava seguir em frente.

Como foi sua trajetória até se tornar figurinista profissional em 2016? Quais foram os maiores desafios no início?

Em 2016, um artista da minha cidade, que já produzia as indumentárias do boi, me convidou para trabalhar com ele na criação dos figurinos. Eu era muito inexperiente naquela época, mas a união do nosso trabalho resultou em fantasias muito bonitas. A partir daí, diversas oportunidades foram surgindo, e eu sempre procurei abraçar cada uma delas. Também buscava constantemente maneiras de divulgar e oferecer meus serviços.

Com o tempo, cheguei aos itens de Parintins, que sempre foram e continuam sendo uma grande vitrine para os profissionais da área, proporcionando muita visibilidade. Um dos maiores desafios foi conquistar espaço nesse universo, especialmente por ser muito jovem. Aos poucos, fui ganhando a confiança das pessoas e ampliando minha visibilidade, inclusive por meio das redes sociais.

Você teve formação acadêmica ou aprendeu mais na prática e pela vivência artística? Como esse processo aconteceu?

Não tive formação acadêmica na área artística. Na verdade, sou bacharel em Enfermagem, embora nunca tenha exercido a profissão. No campo da arte, acredito que as vivências e o próprio dom me trouxeram até aqui. Tudo aconteceu de forma muito natural, sempre cercado por pessoas que compartilharam experiências e contribuíram para o meu crescimento.

Trabalhar com festivais exige muita criatividade e resistência. O que mais te encanta nesse universo cultural amazônico?

Acredito que os espetáculos como um todo são encantadores. Participar de cada festival é uma experiência única, principalmente pela forma como as pessoas vivem e amam aquela festa. É emocionante ver a dedicação coletiva para que tudo aconteça da melhor maneira possível. A magia de ver todos trabalhando juntos para criar algo grandioso é inspiradora. Quem conhece os bastidores sabe que as apresentações na arena são resultado de muita garra, esforço e paixão.

Como surgiu a oportunidade de integrar o Boi Caprichoso em 2021? O que esse momento representou para sua carreira?

Recebi um convite do presidente do Conselho de Artes para criar dois figurinos para uma live realizada durante a pandemia. Na ocasião, ele deixou claro que não se tratava de uma contratação oficial. Mesmo assim, desenvolvi o trabalho com muita dedicação, e o resultado agradou a todos. No ano seguinte, fui convidado a integrar oficialmente a equipe de figurinistas do Boi Caprichoso.

Sem dúvida, esse momento representou a realização de um grande sonho e também abriu portas para atuar em diversos outros festivais da Amazônia.

O que muda na criação de figurinos quando você trabalha para festivais folclóricos em comparação com o Carnaval de São Paulo e do Rio de Janeiro?

Apesar de serem trabalhos bastante semelhantes, existem algumas diferenças importantes. No Carnaval, utilizamos muitas pedrarias e trabalhamos com propostas mais ousadas e inovadoras. Já nos festivais folclóricos, existe uma identidade visual e cultural que precisa ser respeitada, com elementos mais rústicos e ligados às tradições. Isso não significa que não haja brilho ou inovação, mas eles são incorporados de uma forma diferente.

Existe algum figurino ou projeto que tenha marcado sua trajetória de forma especial? Por quê?

Acredito que tenha sido o figurino criado para o meu primeiro trabalho no Boi Caprichoso, em 2021. Foi naquele momento que realizei um dos maiores sonhos da minha vida: fazer parte do Festival de Parintins como figurinista. Essa conquista me marcou profundamente.

Hoje, morando em Manaus e vivendo esse momento profissional, qual é o maior sonho que você ainda deseja realizar dentro da arte?

Meu maior sonho é profissionalizar ainda mais o meu trabalho e montar meu próprio ateliê. Quero oferecer mais conforto, estrutura e qualidade, tanto para mim quanto para os meus clientes.

Como você enxerga a força da cultura amazônica no cenário nacional da moda, do espetáculo e do entretenimento?

Vejo a cultura amazônica como uma potência cada vez mais forte no cenário nacional. Nossa identidade, nossas cores, tradições e ancestralidade têm conquistado espaço na moda, nos espetáculos e no entretenimento de maneira única e autêntica. A Amazônia tem arte, beleza e história suficientes para inspirar o Brasil inteiro, e é muito importante ver tudo isso sendo valorizado e representado com orgulho.

Que conselho você daria para jovens artistas da região Norte que sonham em viver da arte e da criatividade, assim como você conseguiu?

Persistam, lutem e corram atrás dos seus objetivos. Não deixem que um “não” seja encarado como uma derrota. Só eu sei o caminho que percorri para construir meu nome como figurinista. Por isso, acreditem em vocês mesmos, busquem sempre inovar, sejam responsáveis e comprometidos com seus clientes. Com dedicação e perseverança, é possível alcançar os sonhos que vocês tanto desejam.

 

PRODUÇÃO: EM VISÃO

FOTOS: RUDÁ MARQUES