JUSTIÇA, HUMANIDADE E PROPÓSITO: UMA TRAJETÓRIA DEDICADA À TRANSFORMAÇÃO DE VIDAS

Algumas mulheres transformam a profissão em uma verdadeira missão de vida. É o caso de Sabrina Monteiro Porto de Almeida, servidora pública estadual, Analista Judiciária do Tribunal de Justiça do Amazonas e referência na promoção da Justiça Restaurativa e da cultura de paz. Graduada em Direito pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com pós-graduação em Direitos Difusos e Coletivos pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo e mestranda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Sabrina reúne sólida formação acadêmica e mais de duas décadas de atuação no serviço público. Desde 2007 integra o TJAM, onde desenvolve um trabalho pautado na valorização da dignidade humana, na escuta qualificada e no fortalecimento dos vínculos sociais. Nesta edição de Mulheres Protagonistas da Amazônia, sua trajetória inspira ao demonstrar que a verdadeira Justiça também se constrói por meio do diálogo, da empatia e do compromisso com as pessoas.

Em algum momento da sua trajetória, você considerou seguir outra profissão?

SA – Tive várias crises profissionais, que me levaram ao empreendedorismo (por um ano no ramo da recreação infantil), à faculdade de psicologia (cursei apenas um período), a uma pós-graduação em neuropsicopedagogia e a uma pós-graduação em turismo (ambas não concluídas, faltando apenas o TCC) e a uma formação em ioga infantil.

Conseguiu alcançar os objetivos desejados? Como foi percorrer esse caminho?

SA – Depois de tantas dúvidas e grata por todas as pessoas que não me deixaram desistir, reencontrei meu caminho no Direito – escolhido ainda na pré-adolescência – ao trabalhar com adolescentes em conflito com a lei na Vara de Execução de Medidas Socioeducativas, bem como com Justiça Restaurativa; pois ambos me aproximaram da humanidade das pessoas e, consequentemente, da minha também.

O que motivou sua escolha por esta especialidade?

SA – Foram elas que me escolheram, enquanto eu passava pelo momento mais difícil da minha vida. Com uma empresa falida, um divórcio em andamento e uma forte apatia profissional, essas especialidades me salvaram quando me colocaram em contato direto com as dores de vínculos sociais gravemente rompidos e me deram a função de apoiar o tratamento das causas e das consequências dessas dores, pois tanto me devolveram o senso de utilidade que eu julgava ter perdido, quanto, até hoje, me mantêm acordada em relação ao mundo que me cerca, conectando-o ao mundo que habita dentro de mim.

Quais são suas principais referências na área e quais os motivos que a levaram a escolhê-las?

SA –  Sou muito grata pelas lições recebidas de todas as pessoas que me chefiaram, guiaram e acompanharam no meu caminho profissional, desde que comecei a estagiar no ramo jurídico em 1999; mas vou citar as três que mais impactaram a minha vida: meu primo e advogado Daniel Nogueira, que me inspira, desde que nasci, com sua genialidade e generosidade; meu ex-chefe, Desembargador Cláudio Roessing, que, desde minha chegada à 2ª Vara Cível em 2007 como sua assessora, me incentiva a buscar a realização dos meus sonhos, sendo ao mesmo tempo um porto seguro e uma referência de integridade para mim; e meu atual chefe, Dr. Luís Cláudio Chaves, que, há oito anos, me contagia com sua humanidade e seu entusiasmo pela vida e me impressiona com sua perspicácia e liderança.

Quem foram as pessoas que sempre a incentivaram a seguir na sua profissão?

SA – Além dos profissionais que citei nas referências, meus/minhas colegas e amigos(as) de trabalho e minha família, especialmente minha mãe e meu pai, Cleodimar e Homero, minha filha, Maria Helena, e minha irmã, Samira, que sempre acreditaram em mim, principalmente quando eu menos acreditava.

Como você concilia sua agenda profissional com a vida pessoal?

SA – Minha agenda profissional padrão é leve, considerando que tenho uma carga horária privilegiada de trinta horas semanais; mas, nos últimos dois anos, em que o mestrado e as viagens a serviço ocuparam grande parte do meu tempo livre, pude contar com a paciência e a generosidade dos meus familiares, amigos e amigas, que sempre perdoaram minhas ausências e me receberam com muito amor quando eu reaparecia.

Não tenho hobbies, mas meu melhor passatempo é estar entre pessoas, confraternizando, conversando, apoiando, vivendo. Um bom banho de rio de vez em quando também me ajuda a recarregar minhas energias. E, ultimamente, reencontrei prazer na prática de exercícios físicos. Quanto à maternidade, que me atravessa em tudo o que faço, posso dizer, na condição de mãe solo, que é algo que me ensina diariamente que a vida é um transbordamento permanente de sentimentos, dúvidas e desafios. Sou muito grata pela parceria construída nesses quase 16 anos com minha filha, que aceita a “mãe possível” que tem e me enche de orgulho e esperança em um amanhã melhor. Por fim, já que a pergunta é sobre equilíbrio, nada seria possível sem minha rede de apoio primária: minha mãe e meu pai, a quem sempre dedicarei toda e qualquer conquista da minha vida.

Quais são os serviços mais procurados na sua atuação e quais atividades você desenvolve?

SA – Na condição de assessora de juiz, não presto serviços diretamente ao público, mas o auxilio nas atividades referentes ao redirecionamento de adolescentes em conflito com a lei. No contexto da Justiça Restaurativa, ministro cursos de formação principalmente para servidores públicos e componho comissões e comitês que atuam na defesa de direitos de crianças, adolescentes e pessoas idosas, bem como na disseminação da cultura de paz no Estado e no combate e prevenção de todo tipo de assédio e discriminação no âmbito institucional do TJ/AM.

Qual é o principal diferencial do trabalho desenvolvido pela sua equipe?

SA – Acho que o diferencial do trabalho que desenvolvo é que nossa equipe tenta compreender as pessoas e suas histórias, a fim de encontrar uma forma de atender às suas reais necessidades, sem nos limitar a apenas dar andamento aos processos.

Como você se mantém atualizada em sua especialidade?

SA – Além do mestrado em Direito que estou concluindo neste mês de agosto de 2026, participo de cursos oferecidos pelo TJ/AM e outras instituições do ramo jurídico, especialmente os relacionados a direitos humanos, cultura de paz e direitos da infância e juventude.

O que é essencial para quem decide investir nessa especialidade?

Coragem para olhar além dos seus privilégios e disposição para lidar com os incômodos e desafios humanos que surgirão.

Há algo mais que você gostaria de acrescentar?

SA – Ao revisitar minha trajetória, percebo que os caminhos aparentemente interrompidos ou desviados foram, na verdade, etapas importantes para a pessoa que sou hoje. Cada crise, cada recomeço e cada escolha contribuíram para ampliar meu olhar sobre as pessoas e sobre o verdadeiro sentido do Direito, que, para mim, está na promoção da dignidade humana, no fortalecimento dos vínculos sociais e na construção de uma cultura de paz.

Hoje compreendo que minha maior realização não está em títulos, cargos ou funções, mas na possibilidade de contribuir para que crianças, adolescentes, famílias e profissionais encontrem espaços de diálogo, responsabilização e esperança. Trabalhar com Justiça Restaurativa e com a socioeducação transformou profundamente minha forma de compreender a Justiça, mostrando que nenhuma decisão é verdadeiramente eficaz quando desconsidera a história, a humanidade e as necessidades das pessoas envolvidas.

Se eu pudesse deixar uma mensagem a quem está construindo sua trajetória profissional, diria que vale a pena perseverar, mesmo quando o caminho parecer incerto. As crises podem revelar forças e habilidades que ainda desconhecemos, e é justamente nelas que encontramos oportunidades de crescimento, ressignificação e propósito. Sigo acreditando que o conhecimento técnico é indispensável, mas é a capacidade de escutar, acolher e reconhecer a humanidade do outro que confere verdadeiro sentido ao exercício do Direito e ao serviço público.

Ao olhar para trás, também percebo que nenhuma conquista foi construída sozinha. Sou profundamente grata às pessoas que acreditaram em mim quando eu mesma duvidava do caminho que estava trilhando: à minha família, que sempre foi meu porto seguro; à minha filha, que, mesmo tão jovem, me ensina diariamente sobre amor, coragem e generosidade e me faz querer construir um mundo mais justo; às minhas amigas e aos meus amigos, que celebram minhas alegrias, acolhem minhas fragilidades e tornam a vida mais bonita; e aos companheiros e companheiras de trabalho, que compartilharam comigo conhecimento, confiança e oportunidades, transformando tantos desafios em jornadas mais leves.

Por fim, aprendi que a vida profissional pode até ser uma caminhada individual em alguns momentos, mas ela só floresce verdadeiramente quando é sustentada por vínculos de afeto, incentivo e colaboração. Se hoje dedico meu trabalho ao cuidado das relações humanas, é porque também fui – e continuo sendo – profundamente cuidada pelas pessoas que caminham ao meu lado.

Uma frase

SA –  “É na relação com os demais seres que nos refazemos no mundo.” (Geni Núñez).

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Fotos: Em Visão