
Com uma trajetória marcada pela excelência, liderança e evolução profissional, Nonata Macedo foi Diretora da Qualidade Assegurada da Procter & Gamble (P&G), onde construiu uma carreira de 24 anos. Formada em Administração de Empresas pelo CIESA e com MBA em Business Administration pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), soma 28 anos de atuação no mercado e uma história inspiradora de crescimento, iniciada como estagiária. Ao longo de sua jornada, ocupou posições estratégicas nas áreas de Compras, Materiais, Planejamento, Logística e Qualidade, tornando-se uma das principais lideranças da companhia. Nesta entrevista exclusiva para a série Mulheres Protagonistas da Amazônia, da EM VISÃO, Nonata compartilha os aprendizados e valores que moldaram sua carreira e inspiram novas gerações de mulheres a liderarem com propósito, competência e visão de futuro.
Existe alguma conquista profissional da qual você se orgulha especialmente e que considera um marco na sua trajetória?
NM: Sem dúvida, chegar à Diretoria Executiva foi um dos maiores marcos da minha carreira. Não pelo cargo em si, mas pelo que ele representa.
Representa uma menina da periferia de Manaus, com inglês de escola pública, que um dia desligava o telefone porque não entendia o que diziam do outro lado da linha e que hoje participa de decisões estratégicas em uma empresa global.
Também me orgulho muito dos idiomas. Eles me permitiram representar a fábrica de Manaus em projetos internacionais na Alemanha, Estados Unidos, México, República Tcheca e em outros países. Cada uma dessas experiências ampliou minha visão de mundo e reforçou uma convicção que levo comigo até hoje: competência não tem CEP. O lugar onde você nasceu explica o começo da sua história, nunca o tamanho dela.
Quais características você acredita que foram essenciais para conquistar credibilidade, respeito e resultados ao longo desses anos?
NM: A primeira delas foi consistência. Sempre procurei entregar resultados de forma contínua. Credibilidade não se constrói em um grande projeto, mas na soma das pequenas entregas feitas com excelência ao longo dos anos.
A segunda foi integridade. As pessoas sabiam que minhas decisões nunca seriam guiadas pela conveniência, mas pelo que eu acreditava ser o certo. Isso cria confiança, e confiança é um ativo valioso em qualquer organização.
Também destaco a adaptabilidade. Em mais de duas décadas vivi mudanças de estratégia, de liderança, de mercado e de cultura. Permanecer relevante exige a capacidade de aprender, desaprender e se reinventar constantemente.
Mas, se tivesse que escolher apenas uma competência, seria o autoconhecimento. Acredito que ninguém lidera pessoas de forma consistente sem antes aprender a liderar a si mesmo. Conhecer seus valores, seus limites e suas fortalezas é o que permite liderar com autenticidade.
Como você lidou com momentos de pressão, mudanças e grandes responsabilidades dentro da empresa?
NM: Sempre enxerguei a pressão como consequência natural da responsabilidade.
Quanto maior o impacto das suas decisões, maior será o nível de exigência. Trabalhar em uma empresa global me ensinou que pressão não é algo que desaparece quando crescemos na carreira. Ela apenas muda de formato.
Procurei enfrentar esses momentos mantendo três compromissos: transparência, disciplina e consistência. Sempre fui muito clara sobre minhas entregas, extremamente comprometida com prazos e consciente de que confiança se constrói todos os dias.
É claro que houve momentos difíceis. Empresas de alta performance desafiam constantemente seus profissionais. Mas foi justamente nesses momentos que desenvolvi resiliência, capacidade de adaptação e a tranquilidade necessária para tomar decisões mesmo sob pressão.
Hoje acredito que a maturidade de um líder não aparece quando tudo está bem. Ela aparece quando o cenário é incerto e, ainda assim, as pessoas continuam confiando na sua liderança.
Na sua visão, como o papel da mulher no mercado de trabalho evoluiu nas últimas décadas? O que ainda precisa avançar?
NM: Evoluímos muito, mas ainda temos um longo caminho pela frente.
Hoje vemos muito mais mulheres ocupando posições de liderança do que quando comecei minha carreira. Isso é resultado de décadas de trabalho de muitas mulheres que abriram caminho para as próximas gerações.
Ao mesmo tempo, ainda somos minoria nos cargos de maior poder e decisão. Os números mostram isso. As mulheres continuam sub-representadas nas posições executivas, especialmente nos níveis mais altos das organizações.
Mas acredito que o maior avanço não será apenas aumentar esses números. Será mudar a forma como avaliamos liderança.
Durante muito tempo esperou-se que mulheres liderassem como homens. Hoje começamos a entender que diversidade também significa valorizar diferentes estilos de liderança. Quanto mais mulheres ocuparem espaços de decisão sem abrir mão da própria identidade, mais rápido essa transformação acontecerá.
Como encontrar equilíbrio entre uma carreira de alta performance, a vida pessoal e o autocuidado?
NM: Honestamente, hoje eu não acredito na ideia de equilíbrio perfeito. E isso me trouxe muita paz.
Ao longo da vida haverá momentos em que a carreira exigirá mais de você. Em outros, será a família. Também existirão fases em que será necessário priorizar a própria saúde.
É impossível manter todos os pratos equilibrados o tempo inteiro.
Eu também vivi períodos em que negligenciei meu autocuidado. Como muitas mulheres, tentei dar conta de tudo e aprendi que isso tem um preço.
Hoje prefiro falar sobre prioridades conscientes, e não sobre equilíbrio.
Equilíbrio não significa dividir tudo igualmente. Significa fazer escolhas que estejam alinhadas ao momento que você está vivendo, sem carregar culpa por isso.
No fim, uma carreira de sucesso não é aquela em que nunca desequilibramos os pratos. É aquela em que aprendemos a reorganizá-los sempre que necessário.
Qual foi a lição mais valiosa que os mais de 20 anos na P&G lhe ensinaram e que você leva para a vida?
NM: Ao longo desses mais de vinte anos aprendi inúmeras lições, mas duas transformaram completamente a forma como enxergo a carreira.
A primeira é que performance é o ingresso para a festa. Você precisa entregar resultados para conquistar oportunidades. Mas, à medida que cresce na organização, percebe que resultados, sozinhos, não sustentam uma carreira. Confiança, reputação, posicionamento e a capacidade de influenciar passam a fazer parte da equação.
A segunda lição é que, quando você conquista um lugar na mesa onde as decisões são tomadas, precisa aprender a usar a sua voz. Muitas pessoas passam anos tentando chegar até lá e, quando chegam, deixam de contribuir por medo de errar ou desagradar.
Liderança também é ter coragem de se posicionar.
Depois de tantos anos de dedicação, qual legado você acredita ter deixado para a empresa e para as pessoas que trabalharam ao seu lado?
NM: Espero ter deixado uma mensagem muito simples: é possível cuidar das pessoas sem abrir mão da alta performance.
Durante muito tempo criou-se a falsa ideia de que líderes precisam escolher entre resultados e humanidade. Eu nunca acreditei nisso.
Sempre procurei desenvolver equipes que se sentissem desafiadas, respeitadas e valorizadas, porque acredito que pessoas que crescem entregam melhores resultados para o negócio.
Se eu tiver inspirado alguém a liderar com mais coragem, mais ética e mais respeito pelas pessoas, acredito que já deixei uma contribuição importante.
No fim do dia, processos podem ser copiados. Tecnologia pode ser comprada. Mas líderes que desenvolvem pessoas deixam um legado que permanece.
O que mais a inspira nesta nova fase da sua vida e quais são os próximos sonhos e projetos?
NM: Durante muitos anos meu foco foi construir a minha própria carreira.
Hoje, meu maior propósito é usar tudo o que vivi para acelerar a trajetória de outras pessoas, especialmente de mulheres que desejam crescer profissionalmente.
Levei anos para entender regras do mundo corporativo que ninguém me ensinou. Hoje tenho a oportunidade de compartilhar esses aprendizados por meio das mentorias, das palestras e, agora, desta coluna.
Quero mostrar que o lugar onde você nasceu não determina o lugar onde pode chegar.
Se eu conseguir fazer com que outras mulheres encurtem caminhos que eu precisei descobrir sozinha, já estarei realizando um dos maiores objetivos da minha vida.
Que conselhos você daria para mulheres que desejam crescer profissionalmente, assumir posições de liderança e construir uma carreira de sucesso?
NM: O primeiro conselho é: entregue resultados, mas não acredite que apenas o seu trabalho falará por você.
Aprenda a comunicar o seu valor, construa relacionamentos de confiança, busque feedbacks sinceros e desenvolva um posicionamento consistente.
Infelizmente, ainda vivemos em um cenário em que homens costumam ser avaliados pelo potencial, enquanto mulheres frequentemente são avaliadas pelo comportamento. Isso não significa aceitar essa realidade, mas entender que precisamos ser estratégicas para transformá-la.
Também aconselho que busquem mentores o quanto antes. A faculdade prepara excelentes profissionais, mas dificilmente ensina como navegar nas relações, nas decisões e nos desafios do mundo corporativo.
E, por fim, não desperdice energia tentando competir com outras pessoas.
A única profissional que você precisa superar é aquela que você foi ontem.
Para finalizar, qual mensagem você gostaria de deixar para as mulheres da Amazônia que sonham grande, mas ainda têm receio de dar o primeiro passo?
NM: Eu diria que sonhar pequeno ou sonhar grande dá exatamente o mesmo trabalho.
A diferença está na coragem de acreditar que você pertence aos lugares que deseja ocupar.
Ser mulher, ser da Amazônia ou ter começado a vida com poucos recursos nunca deveria definir o tamanho dos seus sonhos.
Minha história é prova de que é possível sair da periferia de Manaus e chegar a uma posição executiva em uma empresa global.
O caminho exige estudo, disciplina, renúncias e muita persistência. Não é fácil. Mas é possível.
E quero deixar uma última reflexão: o lugar onde você nasceu explica o começo da sua história. Nunca o tamanho dela.
Se a minha trajetória puder fazer uma única mulher acreditar mais em si mesma, então tudo o que vivi terá valido ainda mais a pena.
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