HOTÉIS COM ALMA: TURISMO SUSTENTÁVEL MANAUS

O piso é todo de madeira em marchetaria. As paredes, em alguns trechos sem reboco, revelam pedras sobre pedras, exatamente como eram muitas construções da Manaus dos tempos áureos da borracha. Os objetos espalhados pelos ambientes conduzem o visitante por uma verdadeira viagem cultural, valorizando especialmente artistas amazônicos, peças de artesanato indígena e elementos que contam histórias de diferentes partes do mundo.

 

Assim são os hotéis boutique que visitei esta semana no Centro Histórico de Manaus: Casa Perpétua, Hotel Casa Teatro, Casa dos Frades e Casa do Bispo. Cada um possui personalidade própria, mas todos compartilham uma mesma essência: a valorização da memória, da cultura e da sustentabilidade por meio da recuperação de imóveis históricos e objetos de decoração frutos de reuso.

Por trás desse conceito está a empresária do setor de hotelaria Cláudia Mendonça, pioneira na transformação de antigas edificações do centro da capital amazonense em espaços de hospedagem que unem conforto, identidade local e preservação patrimonial. Em cada empreendimento, a decoração é resultado de anos de pesquisa, garimpagem, reaproveitamento de mobiliário e resgate de objetos históricos que ajudam a contar a trajetória de cada imóvel.

 

No Hotel Casa Teatro, um prédio pequeno, estreito e discreto, quase escondido na paisagem urbana do Centro Histórico de Manaus, bem ao lado do antigo Tribunal de Justiça, hoje Palácio da Justiça, estão guardadas memórias de uma cidade em transformação. Uma Manaus que começava a deixar para trás as características do século XIX enquanto incorporava os primeiros sinais da modernidade que marcaria o século XX.

 

A arquitetura, de linhas mais retas e sóbrias, distante das curvas e formas orgânicas que costumam remeter à floresta amazônica, revela uma fase importante da evolução urbana da capital amazonense. Cada ambiente preserva fragmentos dessa história por meio dos pisos originais, das paredes restauradas, dos móveis de época e dos detalhes arquitetônicos cuidadosamente mantidos.

 

Quem se hospeda ali encontra mais do que uma acomodação. Tem a oportunidade de vivenciar uma atmosfera que conecta passado e presente. Das janelas, é possível contemplar o majestoso Teatro Amazonas e o Palácio da Justiça, dois dos mais importantes símbolos da riqueza histórica e cultural da cidade.

Mas é nos detalhes que a experiência amazônica se revela com maior intensidade, como no Hotel Casa Perpétua. Ela está presente nas plantas que ocupam os ambientes, nos troncos de árvores reaproveitados e transformados em mesas e suportes, nas cestarias artesanais que adornam os quartos e nos elementos decorativos que valorizam os saberes tradicionais da região. Tudo é pensado com extremo cuidado, combinando autenticidade, conforto e respeito à identidade local.

Já na Casa do Bispo e na Casa dos Frades, a atmosfera remete à Manaus que respirava a vida em torno do Largo São Sebastião, quando religião, cultura e cotidiano se encontravam no coração da cidade. Ali, a história não está apenas preservada na arquitetura, mas também nos detalhes que compõem cada ambiente.

Objetos que pertenceram a padres, frades e bispos convivem harmoniosamente com peças garimpadas pela proprietária em diferentes partes do mundo. O resultado é uma combinação elegante entre memória local e referências globais. As paredes expostas revelam as marcas do tempo e ajudam a contar a trajetória dessas edificações centenárias, transformadas em espaços de acolhimento sem perder sua identidade original.

Na Casa do Bispo, o terraço abriga um pequeno lounge que oferece uma das vistas mais privilegiadas do Centro Histórico. De frente para o Teatro Amazonas, o espaço permite observar a cidade sob uma perspectiva que mistura passado e presente, contemplando telhados antigos, fachadas históricas e um dos maiores símbolos da cultura amazonense.

Por todos os cantos, objetos contam histórias. Alguns remetem diretamente à antiga função dos imóveis; outros revelam viagens, culturas e tradições de diferentes países. É como percorrer, ao mesmo tempo, a história de Manaus e um pequeno mapa afetivo do mundo, construído ao longo dos anos pela dedicação de Cláudia Mendonça.

 

A conexão com a Amazônia, entretanto, permanece como elemento central. Na área da piscina da Casa do Bispo, bananeiras emolduram o ambiente e reforçam a sensação de estar em um refúgio tropical no meio da cidade histórica. Já a fruteira disponibilizada aos hóspedes durante o café da manhã valoriza a sazonalidade e os sabores locais, com mangas, bananas e outras frutas típicas facilmente encontradas nos quintais e mercados de Manaus.

 

Essa valorização da memória não acontece por acaso. Ela faz parte de uma filosofia de gestão adotada por Cláudia Mendonça. Durante a visita, ela explicou que muitos dos materiais encontrados nos próprios imóveis ganham novas funções, evitando desperdícios e preservando a identidade original das edificações.

Madeiras encontradas durante as reformas são transformadas em armários, guarda-roupas, roupeiros para roupas de cama e outros elementos do mobiliário. O resultado pode ser visto nos corredores, quartos e áreas comuns, onde peças contemporâneas convivem harmoniosamente com estruturas centenárias. Da mesma forma, objetos encontrados nas próprias casas são recuperados, preservados e expostos como verdadeiras relíquias, contribuindo para contar a história de cada imóvel.

Para Cláudia, a essência de um hotel boutique está justamente nessa capacidade de preservar e compartilhar memórias. 

“Eu acho que todo hotel tem uma alma, tem uma história para contar. Cada casa que eu compro ou que eu arrendo tem uma história. E o que eu procuro é preservar essa história, realçar essa história. Porque hotelaria não é só sobre hospedagem, é sobre experiência, sobre vivenciar a história de um lugar, a história de um hotel, a história de um hotel boutique. E é isso que eu procuro oferecer aos meus hóspedes”, afirma ela.

A fala resume um conceito que vai muito além da hotelaria. Em um momento em que tanto se discute ESG, sustentabilidade e desenvolvimento responsável, esses empreendimentos demonstram que preservar também é uma forma de inovar. A recuperação de prédios históricos reduz a necessidade de novas construções, valoriza a cultura local, fortalece a economia criativa, incentiva a contratação de mão de obra especializada e cria experiências autênticas para quem visita a cidade.

É uma forma de turismo sustentável que gera impactos positivos tanto para o patrimônio quanto para a comunidade.

Nem sempre a sustentabilidade se apresenta por meio de grandes relatórios, certificações ou metas corporativas. Às vezes, ela está nos detalhes: em uma madeira reaproveitada, em uma parede preservada, em uma peça antiga restaurada, em uma cesta produzida por artesãos da Amazônia ou em uma fruta da estação oferecida ao hóspede.

Os hotéis boutique do Centro Histórico de Manaus de Cláudia Mendonçamostram que desenvolvimento e preservação podem caminhar juntos. Mais do que hospedagem, oferecem uma experiência de pertencimento, memória e identidade. E provam que, quando um edifício histórico ganha uma nova vida, toda a cidade ganha junto.